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Sexualidade na Gravidez

Autor: Leonardo Goodson

Sexualidade na Gravidez e no Puerpério

Quando se estuda o relacionamento sexual de um casal grávido, chega-se à conclusão de que mudanças e conflitos irão caracterizar essa nova fase da vida.

Mudanças anatômicas, hormonais, fisiológicas e psicológicas devem ser sempre discutidas e esclarecidas. Conflitos de relacionamento, existenciais e sociais também fazem parte dessa nova rotina.

Opiniões discordantes quanto à possibilidade de se praticar o sexo durante a gestação e o puerpério acompanham a humanidade em toda a sua história. Hipócrates, já havia sugerido que a atividade sexual poderia levar ao abortamento.

Sabendo-se que o ser humano é o único entre os animais que mantém uma atividade coital durante o período da gravidez, é de suma importância a discussão e a pesquisa sobre o assunto.

Se fizermos um breve apanhado de algumas culturas e de alguns estudos, chegaremos à conclusão do porquê de todas as nossas dúvidas.

O Islam proíbe o coito durante a gravidez, a menstruação e a lactação. Já a religião hindu estimula a relação sexual, acreditando que o sêmen pode servir de alimento ao feto. No Japão, algumas gestantes crêem que exercícios extenuantes como a atividade coital podem suavizar o trabalho de parto. Havellock Ellis cita que existiam povos que, por relacionarem o sangue à vida como fonte divina, usavam a pena de morte para aqueles homens que mantivessem relações durante a gravidez, o puerpério e a menstruação.

Com relação a pesquisadores, tudo começou com Hipócrates, já citado anteriormente, que associou o sexo ao abortamento. Roman Rechnitz Linner relatou que especialmente o orgasmo materno poderia provocar uma anoxia fetal, com conseqüente retardo mental e outras anormalidades no recém-nascido. Cowan (1869) mostrou a incidência de abortos que ocorriam devido à brutalidade do marido durante o exercício sexual. Em 1960, Javert publicou que, em 250.000 mulheres, menos de 0,007 dos abortamentos aconteceram por causa de traumas maiores, e Slate (1977) relatou que, em 1.000 abortamentos espontâneos, só um ocorreu devido a trauma externo. Os estudos de Masters e Johnson, na década de 60, mostraram que o orgasmo provoca uma contração uterina semelhante ao trabalho de parto. Em 1971, Goodlin et al. demonstraram, através de monitoração materna e fetal, durante o coito e a masturbação, que ocorria bradicardia fetal não constante. O mesmo autor, em 1976, publicou que, em pacientes pré-termo orgásmicas, existiam três vezes mais partos prematuros do que em mulheres anorgásmicas. Nesse mesmo trabalho é relatado um descolamento placentário, normalmente inserido após um orgasmo através da automanipulação. Wagner et al., em 1976, fracassaram na tentativa de demonstrar que o coito influenciava na prematuridade.

Em 1982, Perkins sugeriu que as pacientes anorgásmicas teriam uma maior incidência de parto prematuro cm relação às orgásmicas, devido ao maior sofrimento emocional que elas vivenciavam. Clayen et al. (1986) mostraram que em três mulheres de idades gestacionais diferentes ocorreram nascimentos de crianças normais, mesmo com a observação de um aumento na atividade uterina e na freqüência cardíaca fetal imediatamente após o orgasmo.

Talvez o relato mais impressionante da literatura seja a descrição de 10 mortes maternas, por embolia gasosa, devido à insuflação de ar pela vagina durante o exercício do sexo oral.

Sabe-se hoje da importância de todos esses trabalhos, mas com certeza tem-se como rotina a liberação da, atividade sexual durante toda a gestação, com algumas ressalvas quando das contra-indicações médicas que serão discutidas posteriormente.

Para facilitar o entendimento, separaremos o estudo binômio sexo/gravidez em: influências da gravidez sobre a sexualidade e influências da sexualidade na gravidez, avaliando os aspectos psicológicos, sociais e biológicos de cada trimestre.

Psicologia da Gravidez

Aliados às alterações físicas, os fatores psicológicos são de fundamental importância na dinâmica do casal grávido.

Na psicodinâmica da mulher grávida notaremos, com certeza que a regressão se torna bem evidente. A ambivalência está presente na dúvida de desejar ou não o filho, na incerteza de como será sua vida após o nascimento, na pergunta sempre presente de ter ou não um bebê normal e no não saber do atual papel que deverá ser representado, mãe/amante. A não aceitação das modificações corporais faz com que surja uma baixa da auto-estima, com conseqüente medo da indiferença do parceiro.

O homem passa também por mudanças psicológicas claras, como a ansiedade de se sentir realmente pai. É uma fase em que, mesmo com o advento da ultra-sonografia, a identificação com a paternidade ainda se torna obscura até o nascimento. É interessante notar que a gravidez ao mesmo tempo que comprova a virilidade do homem, traz como dúvida o verdadeiro papel de pai genético. Outro fator importante é a chamada "síndrome da Virgem Maria", que caracteriza bem a visão masculina da esposa gestante, dificultando bastante o desejo sexual do parceiro.

Vale a pena lembrar que irão acontecer quatro nascimentos: nascerão uma mãe, um pai, uma criança e uma nova família. Com isso, surgirão muitas angústias nos níveis individual, familiar e econômico.

Influências da Gravidez Sobre a Sexualidade

Existe uma influência bem clara das modificações e sintomas da gravidez sobre a sexualidade. Fica bem nítido que essas alterações, sejam elas anatômicas, fisiológicas ou psicológicas, são bem diferenciadas no que diz respeito a cada fase da gestação.

No primeiro trimestre, notaremos que, por todos os sintomas característicos desta fase, como náuseas, vômitos e cansaço, é natural que o desejo e, conseqüentemente, a freqüência sexual diminuam. O aumento das mamas contribui para que elas se tornem incomodativas ao toque, dificultando o jogo sexual. A libido feminina direciona-se para as alterações corporais, diminuindo a sua atividade sexual.

No segundo trimestre, a gestante passa pela melhor fase da gravidez, tanto com respeito à segurança por já sentir com mais intensidade a gestação, quanto com relação ao aumento da auto-estima por se achar mais bonita e por não estar vivenciando mais aqueles sintomas tão incômodos da primeira fase. Anatomicamente notaremos que seria possível uma maior resposta orgástica, devido a uma melhor irrigação sangüínea, aumento da rede vascular, com conseqüente aumento da lubrificação vaginal. É a fase em que o desejo e a freqüência coital têm tudo para se tornar mais reais.

No terceiro trimestre, surge uma nova etapa de preocupação, principalmente pelo medo da proximidade do parto. A mãe só pensa em ter um bebê sadio. A própria mudança corporal, com o aumento exagerado do abdômen e os sintomas devidos à dificuldade de postura, faz com que o ato sexual se torne dificultoso e não tão desejado.

No puerpério, existe um fator importante que deve ser citado, a tranqüilidade com que o parto ocorreu, tanto com relação à cirurgia propriamente dita quanto com a preparação que foi feita durante o pré-natal. A dúvida quanto ao retorno sexual se deve basicamente ao medo da dor à penetração. Respeitando o tempo necessário para o início da vida sexual, entendemos que a dispareunia é decorrente da diminuição estrogênica advinda do aumento da prolactina durante a amamentação. Masters e Johnson, em suas pesquisas, compararam a vagina da mãe que amamenta no puerpério à vagina senil.

Influência da Sexualidade Sobre a Gravidez

Com certeza, os mitos e a falta de conhecimento quanto à influência que a sexualidade pode ter em relação à gestação fizeram com que durante anos não se aconselhasse a atividade sexual durante a gravidez. Hoje, sabemos que as relações sexuais em si não ocasionam problema algum à gravidez normal, pelo contrário, podem beneficiá-la. A relação sexual tranqüiliza as ansiedades do casal através da satisfação.

A preocupação está exatamente em duas complicações comuns: a ameaça de abortamento e o parto prematuro. Com as pesquisas de Masters e Johnson mostrando que durante o orgasmo as contrações uterinas são semelhantes às que ocorrem no trabalho de parto, ficou claro que nessas condições (ameaça de abortamento e parto prematuro) está contra-indicada qualquer atividade sexual que leve ao orgasmo. É importante esclarecer que o contato sexual não está proscrito e sim o orgasmo, tanto no coito quanto na masturbação. Dentre essas complicações, devem-se somar o abortamento habitual, a cerclagem para a incompetência istmocervical e a ruptura da bolsa amniótica.

Não existe ainda associação direta comprovada de atividade sexual levando ao orgasmo, com ruptura prematura de membrana amniótica.

O Médico e as Angústias Sexuais da Gestante

É de suma importância que o tocoginecologista esteja apto a esclarecer algumas dúvidas sexuais de sua paciente. Notamos que o profissional nem sempre está capacitado para tal.

Surgem perguntas como: Qual a importância da sexualidade para o casal grávido? Será que a medicina dá o suporte necessário para esses esclarecimentos? Quais as principais dúvidas desses casais? Será que estou apto a esclarecer tais dúvidas?

Notamos que para o especialista poder abordar este assunto é importante que, além do conhecimento, ele saiba como a gestante e seu companheiro estão vivenciando esta gravidez. O melhor modo de começar a entender o perfil psicológico do casal é permitir a sua manifestação, de preferência por uma anamnese direcionada para a vida sexual. É importante que se dê espaço para que a mulher exponha suas dúvidas, pois ela vivencia as maiores alterações como: a mudança do seu corpo, angústias e expectativas, a indiferença do companheiro e o medo de prejudicar o bebê, entre outras.

Nos depoimentos que se seguem, veremos como algumas gestantes se sentem:

- 23 anos, casada, segundo trimestre: "Devia existir um curso para o casal durante a gravidez, porque é uma fase de carência muito grande da mulher, principalmente na fase final."

- 23 anos, casada, terceiro trimestre: "A sexualidade deveria ser abordada, pois existem dúvidas que ficamos um pouco inibidas de expor ao médico, mesmo que este seja uma pessoa aberta."

- 21 anos, casada, terceiro trimestre: "Existem curiosidades em relação ao companheiro, tenho medo do que possa estar se passando com ele a partir do momento em que meu interesse diminui e o dele continua o mesmo. O que fazer?"

- 30 anos, casada, segundo trimestre: "Estou no quarto mês e tive enjôos no primeiro trimestre. Ainda sinto um pouco de mal-estar. Suponho que este fator tenha diminuído a minha vontade sexual. Tínhamos relações duas a três vezes na semana, diminuiu para uma vez, para o meu marido o desejo continua o mesmo, mas ele não costuma reclamar. Tenho sempre orgasmos e não tenho medo de me entregar por causa do bebê. Acredito que nossa relação é boa e gosto dos carinhos que ele me faz antes do ato."

Estes depoimentos só comprovam a necessidade urgente de uma maior integração do profissional com o casal.

Essa orientação pode ser feita como um aconselhamento sexual direcionado para esclarecer:

- Resposta sexual normal e alterada pela gravidez.

- Mitos e crendices irracionais.

- Enriquecimento da vida sexual (ex: posições favoráveis).

- Hora adequada para o retorno à vida sexual após o parto.

- Tratamento da dispareunia durante a amamentação (uso de lubrificante -KY gel - ou estrogenioterapia tópica).

- Outras dúvidas que porventura surjam.

Podemos utilizar a metodologia proposta por Gerson Lopes e Malcolm Montgomery, no livro Tocoginecologia psicossomática, para reduzir o impacto psicossexual na gestação.


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